quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Dois pedaços de mim

Muito bem. Fim de ano chegando e eu aqui, postando pela última vez em 2010.

Sei que estou devendo alguns textos, já comentei com vários alunos sobre desejos que tenho de comentar escritos seus... e pretendo cumprir com essas promessas em 2011 (isso ficou parecendo promessa de fim de ano).

Entretanto, agora, vim aqui apenas para postar dois poemas meus. Primeiro, porque algumas pessoas me perguntaram se eu não escrevia também, se não iria postar algo feito por mim. E, segundo, porque como já estão prontos, é rapidinho de postar e eu ando meio sem tempo agora - preparando tudo para viajar! hehehe!

Antes de mais nada, preciso apenas deixar muito claro que esses poemas são antigos, são textos que escrevi há quase dez anos. Fazem parte das minhas primeiras tentativas literárias, mas eu gosto bastante deles. Daí, resolvi compartilhá-los:

Sereia-Sol

Você conhece a história
da sereia Janaína?
É a história da sereia
Inconformada com sua sina.
Não queria mais p’ra ela
Aquela vida de menina,
Que deseja, pede e clama
Pelo que não pode ter.
Confinada aos sete mares
Presa à cauda, sua dor
Ela chorava, pranteava
Implorando ao Criador
Que lhe desse, por um dia,
Um minuto, um momento,
Vida nova, mesmo sendo
Pouco tempo a conceder.
Foi ouvida sua história
E atendidas suas preces
A sereia Janaína
Era agora uma terrestre.
Com um belo par de pernas
Pôde então sentir a terra,
Deslizar por entre as matas
E correr junto do vento!
Foi então sentindo a brisa
Escorrendo por seu rosto
Que ela percebeu quão rápido
Era o vento mais que ela!
Fascinada, Janaína,
Quis então ser como ele.
Com tamanha rapidez
E incrível fluidez,
Poderia ver o mundo
Em apenas um segundo!
Janaína fez-se vento
E se pôs logo a voar!
Junto ao céu e as brancas nuvens,
Viu o brilho do luar
E estrelas muito belas
Que a fizeram desejar
Entrar para o grupo delas,
Ter o dom de cintilar!
Lá do alto, lá brilhante,
Poderia ver bastante!
E assim, ficou estrela
Radiante, luminosa,
Realmente esplendorosa,
Era o que queria ser!
Mas foi quando percebeu
Que ao seu redor havia
Mais magia, e o que ela tinha
Não era o mesmo tal poder!
Asteróides e planetas,
Meteoros e cometas,
Eram tantas coisas plenas
Que de tudo ela quis ser.
Mas foi quando viu o Sol
Majestoso, grandioso,
Que a sereia descobriu
Como deveria viver.
Astro-Rei incorporou
E portanto, Sol virou,
Sereia-Sol, feliz ficou;
Ou, então, assim achou.
Quando viu porém a Terra,
Assim de longe, assim tão bela
Desejou voltar a ela,
E ao mar, que era o seu lar.
 Janaína percebia
Que de tanto querer ser
Já não se satisfazia
E nem conseguia viver.
Foi pensando dessa forma
Que a sereia decidiu
Voltar para suas águas
para aquele azul profundo,
Já que agora percebia,
Que deixá-lo não podia
Afinal, aquele mundo
Era o mais belo de tudo!
Janaína então voltou
Novamente sereia,
Novamente com cauda.
Entretanto, não ligava,
Pois enfim compreendera
Quão afortunada era.
Tinha a cauda de um cometa
Que a fazia poder voar
Tão mais rápida que o vento,
Pois p'ra ela, em pensamento,
O seu céu era o seu mar.
E o seu mar tinha estrelas
Estrelas-do-mar, é bem verdade
Mas quem se importa, que bobagem
Ao menos, ela as tinha lá.
E dessa forma, Janaína,
Tão contente em sua vida
Irradiando alegria
Ficou agora parecida
Com um lindo Sol no mar!

Vontade

Às vezes, eu sinto vontade
Uma vontade imensa, gigantesca
Que parece me abocanhar e engolir.
Uma vontade tão inexplicável
Quanto incompreensível.
É uma verdade
Apenas isso.
E essa vontade
Tão sem nexo, tão imprópria
Queima dentro de mim
Como se dissesse:
“Eu estou aqui
E não adianta
Tentar fugir de mim
Fingir que não me sente
Ou pensar que não existo”.
A vontade é forte
E sei bem quem vencerá
Essa batalha individual.
Já não há mais forças para lutar
E o que havia resistido
Foi seduzido por ela.
Ela: A vontade que me divide
Parte-me ao meio
Em razão e emoção.
Mas a razão já se perdeu
A vontade vitoriosa
É aliada à emoção.
Não luto mais; entrego-me
E que essa vontade
Tenha piedade de mim.


 Aí estão. Dois poemas meus, dois pedacinhos de mim. 

Um comentário que julgo interessante... o poema "Sereia-Sol" foi escrito muito antes de eu tomar conhecimento daquele poema chamado "Círculo Vicioso", do Machado de Assis. Os dois textos têm ideias semelhantes e eu nem preciso dizer o quanto me senti poderosa ao ver que tinha produzido um poema que partia de uma mesma premissa do meu autor preferido!

Já no poema "Vontade", algo semelhante aconteceu. Também o escrevi antes de conhecer a fundo Clarice Lispector, antes de me apaixonar perdidamente pela escritora que ela era. Qual não foi minha agradável surpresa ao descobrir que essa autora, que logo tornou-se minha predileta, discorria tanto sobre algo que, para mim, sempre fez parte da minha essência? Razão e Emoção, a razão perdendo, a emoção triunfando... "Pensar é um ato. Sentir é um fato."

Viram só? Desde antes de conhecê-los, eu estava disposta a amá-los. Machado e Clarice. Definitivamente, sempre fizeram parte de mim.


Bom, é isso aí! Desculpem a postagem mais simples, foi só para fechar o ano mesmo! =)

Beijos para todos e um excelente fim de ano!
Até 2011, pessoas!

Camilla.

2 comentários:

  1. Além de ótima professora, uma ótima escritora :D comecei a comentar o poema sereia-sol aqui, mas começou a ficar muito grande, fiquei inibido, em suma: ele é instigante. Parabéns Camila, sinto saudade da Literatura, e é claro de você, estou um pouco Janaína agora (kkkk) a universidade foi tão desejada, e agora alcançada é que significo meu estado anterior, e infelizmente, ao contrário do poema, bem difícil retornar (a eterna nostalgia). Espero que esteja tudo dando certo na sua vida :D Feliz ano novo (não é que o poema cai bem para essa data?!). Felicidades! Guilherme Henderson (sênior).

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