Meus dois autores prediletos, sem sombra de dúvida, são Clarice Lispector e Machado de Assis. Quem tem ou já teve qualquer aula comigo, deve estar cansado de saber disso.
Por esse motivo, era um tanto óbvio que, em algum determinado momento, eu falaria sobre esses autores nesse blog (que, por sinal, estava bastante parado. Sinto muito, essas coisas acontecem. Mas não pretendo deixar a ideia do blog morrer). Aliás, não pretendo falar deles uma única vez. De qualquer modo, para tudo há uma primeira vez e já estava na hora de começar a falar sobre um deles por aqui.
Para me ajudar, vou trazer uma aluna, para quem dei aula no ano passado. Aluna queridíssima e de incrível talento, tão logo ela começou a me mostrar seus textos, logo me lembrei de Clarice Lispector. Clarice sempre me tocou por escrever o inusitado de forma conhecida e familiar, ou de transformar o banal e o cotidiano em explosões aventureiras e inéditas. O modo como essa autora sabe capturar o sentimento humano, a forma como ela dialoga com a minha alma, o modo como ela me lê sempre me foi fascinante. E ela sempre dizia que apenas escrevia quem ela era e, com a simplicidade dessas palavras, Clarice se tornou um modelo para mim. Quer algo melhor que ler as palavras sem pretensões de uma pessoa que se agigantam diante de quem as lê? Clarice podia não ter essa ou qualquer intenção ao dizer ou escrever isso ou aquilo, mas quer saber? As palavras escritas ganham asas e voam muito além que seu autor poderia imaginar. E eu admiro profundamente quem faz isso. Admiro quem é capaz de escrever uma frase em momento de devaneio próprio e, ao compartilhar essa frase com alguém, seja capaz de tocar o íntimo do outro, fazendo de seu devaneio o devaneio também de outrem.
A aluna Isabel Gandolfo conseguiu isso. Ela me trouxe textos variados, soltos, escritos em folhas de caderno, sem qualquer pretensão. Veio tímida, veio talvez sem saber ao certo o que esperava ouvir de mim. Veio como quem caminhava sabendo que tinha de trilhar aquele caminho, como se soubesse que tinha de dar aqueles passos, como se conhecesse minha necessidade de ler aquelas palavras.
Ela veio, as palavras dela me atingiram e eu me vi diante da garota Isabel que me tocou como a mulher Clarice. Em suas palavras femininas, mas essencialmente humanas, eu a li, eu me li, eu li a tantas outras pessoas.
Fantástico. Não poderia, portanto, deixar que faltasse algo dessa aluna aqui.
Por esse motivo, seguem alguns de seus textos, para degustação de quem estiver lendo:
"Cinco da tarde
Hoje me permiti sentir um pouco de saudade. Só hoje, e só um pouco.Mas ela não veio.
...
Ideias, ideias, ideias, ideias. Que me traem na hora de passá-las para o papel. Pergunto a elas se não preferem a liberdade, e eis que me respondem em uníssono:“-É mais seguro aqui dentro, patroa.”
Queridos sonhos,
Peço que sejam sempre insistentes e perseverantes. Peço que continuem voando alto, e não deixem a palavra “impossível” se tornar uma barreira intransponível. Que não mudem tanto, que me deixem alcançá-los antes de resolverem trilhar por outros caminhos, e que continuem me mantendo viva.E acostumem-se com o fato de que um dia vocês deixarão de ser apenas sonhos.
Planos
Foi por isso que eu achei tão esquisito quando você me disse que precisava de tempo pra pensar no seu futuro. Eu já tinha ele todo planejado. A cor das paredes, o quartinho de descanso, o quintal grande, as viagens, o velho farol perto de casa. O que não existisse, eu criaria. O que você não quisesse, eu mudaria. O que tinha de errado com meus planos? Nada. O erro foi meu, de não ter te perguntado se você gostaria de fazer parte deles.Agora eu sei.
Divisão.
- Me devolver? Como assim?- Nada demais. Só umas poucas coisas que ficaram comigo e eu esqueci de entregar.
- Ah sim. Que coisas são essas?
- Alguns sonhos teus. É que se ligaram a mim de tal maneira, que… Achei que fossem meus também.
- Mas não são?
- Mas não são.
(Mentirosa!)
EV
Segurava o homem em meus braços. Dois tiros à queima roupa, e o atirador corria como quem foge do diabo. Uma pequena multidão começa a se juntar à minha volta. Morria o infeliz, e, imagino, sem saber porque. Acorda de supetão e tosse.- Quando fecho os olhos, enxergo outro mundo. É o paraíso, Doutor? Porque eu fui um homem bom, juro que fui.
Me vem à cabeça uma porção de pensamentos. Céu e inferno… Conceitos humanos falhos e que não me afetam. Conceitos e pensamentos que tendem para os opostos, para os extremos, para o radical. Não é oito nem oitenta colega, você vai pra uma vala fria e úmida. O depois disso eu não sei, mas finjo. Resolvo não discutir com o moribundo.
- Talvez seja o paraíso sim, mas olha, não sou doutor nenhum…
- Tem exatamente o gosto que eu imaginei…
- De que?
- Sangue.
E morre.
Consenso.
Não existe por aqui.
Cabeça e coração não fazem parte de mim. São seres e criaturas com vida. Moram aqui dentro, mas só por comodidade. É que os dois tem vontade própria. Passam o dia lutando entre si. Não me obedecem.
O coração é assim, meio inconsequente. Me faz cair de joelhos na rua se vê a Lua brilhando mais bonita que o normal. Não se importa com os pedestres e passantes curiosos.
E a cabeça me manda levantar. Manda mais do que pensa, mas pensa mais do que faz.
E eu acabo sendo uma guerra! Uma batalha interminável, um campo minado e uma eterna insatisfação. Uma interrogação, uma vírgula, mas nunca um ponto final.
Me controlam, mas não fazem parte de mim. É meu, mas não sou eu.
Rev.
Laços e pontes que as palavras criam. Um mundo novo a cada palavra lida. Um pedaço seu que eu leio, entendo, e você nem sabe! Um pedaço de uma dor que eu já senti, de um amor que eu deixei, um copo d’água que eu não bebi. Me apaixono por palavras que não me pertencem. Me encontro em palavras que não se destinam a mim. E vejo a possibilidade de me entender, porque te entendo. E vejo isso porque… Tem um pouco de mim em você!
0310
Já transformou minha fortaleza num castelinho de cartas. Agora faça gentileza de parar de assoprar, por favor.”
Ah, eu poderia continuar colocando aqui mais e mais postagens dessa garota incrível. Mas acho que deu para vocês sentirem o gostinho do que eu queria mostrar. Se desejarem mais, leiam diretamente no blog dela. Chama-se “flor de vento” e pode ser encontrado no seguinte endereço: http://bgandolfo.wordpress.com/
Visitem e deliciem-se. A garota é realmente fenomenal.
Quanto à Clarice, sei que não falei de nenhuma obra específica dela. Tratei mais dos sentimentos e reações que ela causa. Portanto, se for do interesse... alguém se disponibiliza a escrever algo sobre ela? Aceito sugestões sobre que obra se queira comentar.
Quanto à Isabel, para quem se interessar, ficam aqui alguns contatos dela:
- Twitter: @bgandolfo
- Orkut: procure por “bel Gandolfo”No mais, estou feliz por ressuscitar o blog. Obrigada pela inspiração, Isabel!
Nenhum comentário:
Postar um comentário