quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Desperdício de prazer

Para abrir esse blog, trago a contribuição de uma aluna que está no segundo ano do Ensino Médio. A aluna Francine foi escolhida porque ela me trouxe uma imensa felicidade...

Aqui em Brasília, o Programa de Avaliação Seriada (PAS) recomenda a leitura de certas obras, que devem ser lidas pelos alunos ao longo do ano, a fim de se prepararem apropriadamente para esse mini-vestibular. São muitos os livros requisitados, mas me surpreendi ao ver na lista de 2010 a obra Os Miseráveis, de Victor Hugo. O livro é excelente, pertence ao período romântico que é estudado por esses alunos e é simplesmente um dos grandes clássicos da literatura mundial.

Contudo, é um livro grande. Tem por volta de 1300 páginas. Algumas editoras até preferiram dividi-lo em dois volumes, tamanha a extensão da obra.

Por isso, como não podia deixar de ser, para salvar aqueles alunos que por um motivo ou por outro não conseguem ler a obra na sua versão integral, surgem as versões adaptadas, que trazem um resumo do enredo.

Esse resumo pode até ser bastante funcional e, talvez, até sirva de alguma ajuda para o aluno que deseje fazer uma prova razoável no final do ano. Mas, como sempre digo, a leitura do resumo pode ser funcional, mas jamais é tão prazerosa quanto a leitura de sua história na íntegra. E aí, acaba acontecendo o de sempre: o aluno lê o resumo, sabe de que se trata a história, faz a prova... mas perdeu a chance de se apaixonar pela trama, pelo estilo do autor e por tantas outras coisas que evito falar agora, porque quero dar a palavra à minha aluna Francine:

           "Sempre amei ler, e já li vários livros muito bons. Mas nunca pensei que um “livro de escola” ia se transformar em um dos meus livros favoritos. Talvez, ao ler Os Miseráveis, eu tenha tido a catarse mais profunda. E só entende quem leu a versão integral. Sabe quando ao terminar de ler um livro você sente aquela sensação de alívio, de pureza na alma, de leveza? Preciso dizer também que esse livro foi um dos poucos que me fez chorar, me emocionar. Aquele que você precisa parar de ler, pois seus olhos já estão completamente cheios d'água, mas ao mesmo tempo você não QUER parar, pois precisa saber o que está por vir.


             De todas as cenas, a que mais me marcou foi quando Jean Valjean entregou a boneca para a Cosette. Uma cena tão trabalhada, tão cheia de detalhes, tão carregada que você consegue se enxergar naquela sala, ao lado do Jean, vendo o sorriso se abrir no rosto da pequena Cosette e depois se sentir brincando com ela. A sensação de ler a mesma cena na versão resumida foi completamente contrária, mas igualmente forte - de indignação, de não acreditar que uma cena que te comoveu tanto foi assim tão friamente contada. 

             Desapontada, continuei lendo e cheguei em outra parte que eu tinha amado no livro e que, adivinha, foi outra grande decepção. O beijo de Marius e Cosette. Tão perfeito no livro, tão ridículo no resumo. E digo ridículo, porque apesar de ser muito forte, não há melhor palavra. Pareceu que a Cosette estava sendo obrigada a “amar” Marius.

             Jean Vajean foi minha grande inspiração no livro. Como ele muda a si próprio e a todos que estão ao seu lado. Como ele, apesar dos preconceitos da sociedade, dá a volta por cima de todas as dificuldades. Sua honestidade, seu caráter, suas atitudes. No resumo, tudo isso não tinha como ser mais supérfluo. Os atos de Jean Valjean são relatados como se fossem a coisa mais normal do mundo e não dá a possibilidade do leitor de se envolver com ele. É como se fosse outro homem qualquer, agindo como outro homem qualquer, vivendo como outro homem qualquer. E quem leu a versão de 1300 páginas sabe muito bem que tá longe de ser assim.

             E essas 1300 páginas? Resumidas a 100. Toda a essência do romance foi perdida. As críticas foram deixadas de lado, as emoções também. A história veio mastigada. Foi como ler um livro da 4ª série. E o que me impressiona é que muitos alunos do 2º ano do Ensino Médio, que estão prestes a decidir seu futuro, leram esse livro. Pra mim, isso parece absurdo.

             Sobre o que eu senti ao terminar de ler a obra original e o resumo, respectivamente:

1) ficou a estranha sensação de que tudo estava completo, mas ao mesmo tempo vazio. Estava ali uma obra que faz você perceber de uma maneira completamente diferente o mundo ao seu redor; e também um romance que faz você perder seu chão durante semanas.
2) decepção.

             E para explicar a decepção, me deixe exemplificar. Imagine cada livro como se fosse um mar. Os Miseráveis como se fosse uma das partes mais profundas deste. A partir do momento que você perde o medo do desconhecido e mergulha nessa imensidão, a cada olhar lançado consegue se perceber beleza presente por todos os cantos. Mas o mais importante é o que você aprende nesse mergulho: a apreciar a profundidade do mar e a não se contentar com as coisas rasas."

Comecei esse texto dizendo que a aluna Francine me trouxe uma imensa felicidade. É verdade, ela me trouxe um sorriso em meio à tristeza que eu vinha sentindo quando anunciei em sala que os alunos deveriam ler a versão integral de Os Miseráveis. Escutei muitas reclamações, todas ligadas ao fato de a obra ser muito grande. Isso me chateou, porque estava difícil fazer com que eles se abrissem a uma experiência que, eu sabia muito bem, seria gratificante. Se eles ao menos dessem uma chance...

Foi aí que, dias depois, Francine apareceu, vindo atrás de mim - como sempre faz - serelepe e empolgada, dizendo que já havia comprado o livro e que já tinha começado a ler. As amigas vieram junto, confirmando o que ela dizia e acrescentando que ela não conseguia parar de ler, chegando ao ponto de ler enquanto as outras pessoas faziam outras coisas e dando gritos de emoção em certas partes da obra, assustando quem estava ao redor.

Eu sorri com esse comentário, e internamente eu senti que nada estava perdido. Francine me deu a esperança, que estava meio abalada, de fazer com que os outros colegas dele lessem e quiçá se apaixonassem também. 

Dito e feito. Mais alunos leram, mais alunos amaram, mais alunos vieram me dizer o quanto essa experiência foi gratificante. 

Valeu a pena. 
Valeu a pena, principalmente, por ler a metáfora fantástica da aluna comparando um livro ao mar. Eu amo mar, eu amo água e não sei se ela fez de propósito, mas me ganhou com isso. 

Por isso, sei que acertei quando pedi à aluna que escrevesse um texto comparando Os Miseráveis em sua versão integral com a versão resumida. Que fique claro; não é nosso interesse depreciar os resumos feitos por tantas pessoas que se prestam a esses trabalhos, que são árduos, sim. Entretanto, era nosso desejo mostrar quão enganados estão aqueles que pensam que um resumo ou uma versão adaptada substitui a leitura de um livro. 

Estou satisfeita. Acho que o ponto foi alcançado.

Obrigada, Francine.

PS 1: Para quem quiser entrar em contato com a aluna Francine, ela está no twitter: @franvilhena

PS 2: Se alguém tiver interesse em participar desse projeto, entre em contato que eu lhe responderei assim que possível.

PS 3: Importante frisar - Esse blog é feito para divulgar apenas textos dos meus alunos. Por melhores que sejam, não divulgarei aqui textos de desconhecidos, ok?

PS 4: E o meu e-mail para contatos é camilla_shimabuko@yahoo.com.br. No twitter, podem me localizar como @CamillaYoshico. No orkut, procurem por Camilla Shimabuko. Deixem um toque em qualquer desses lugares, dizendo que quer ver um texto seu nesse blog, comentado e revisado por mim. (coisa chique, hein?)

PS 5: Aguardem! Dois novos textos já estão no forno. Os dois alunos já foram contatados e estão em processo de produção de seus textos. Tão logo eles me passarem, colocarei aqui para serem devidamente apreciados...

Até lá! =D

Um comentário:

  1. Adorei o texto da Francine... Tenho muito desejo de ler Os miseráveis...e agora, mais que nunca, de ler a versão integral. Essa questão de obras resumidas é muito séria, pois até sem querer os alunos podem se ludibriar com isso... uma vez comprei Hamlet, e li, achando que tinha conhecido Shakespeare...até sair aquele volume da Abril, completo...não tardei em comprá-lo.
    Espero que meus alunos sejam assim, como a Francine, e tantos outros que hão de passar por aqui :)
    (detalhe, graças à Camilla escolhi a carreira de prof. de Literatura :))

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